Acordar com tensão na face, dores de cabeça, sensação de cansaço ou ouvir alguém dizer que range os dentes durante a noite são situações mais comuns do que se imagina.
O bruxismo continua a ser frequentemente associado apenas ao ato de “ranger os dentes”, mas a ciência mostra-nos que esta condição é muito mais complexa do que isso.
Durante muitos anos, acreditou-se que o bruxismo era causado sobretudo por problemas na mordida ou desalinhamentos dentários. Hoje, sabemos que envolve múltiplos fatores, incluindo o sistema nervoso, o stress, o sono e os comportamentos automáticos do corpo.
Compreender o que é realmente o bruxismo, reconhecer os sinais e perceber quando pode tornar-se problemático é fundamental para uma abordagem mais adequada e baseada em evidência científica.
O que é o bruxismo?
O bruxismo é uma atividade repetitiva dos músculos da mastigação, caracterizada por: apertar os dentes, ranger os dentes, manter tensão mandibular ou empurrar ou sustentar a mandíbula em determinadas posições.
Atualmente, o bruxismo divide-se em dois tipos principais:
- bruxismo do sono;
- bruxismo em vigília.
O bruxismo do sono ocorre durante o período de descanso e está relacionado com mecanismos neurológicos e atividade do sistema nervoso durante o sono.
Já o bruxismo em vigília acontece durante o dia e está frequentemente associado a padrões de tensão, concentração, stress ou hábitos automáticos, muitas vezes sem que a própria pessoa tenha consciência disso.
Segundo a literatura científica atual, o bruxismo não deve ser visto como uma doença, mas sim como um comportamento que pode ou não estar associado a consequências clínicas (Lobbezoo et al., 2018).
Quais são os sinais mais frequentes?
Nem todas as pessoas com bruxismo apresentam sintomas. Em muitos casos, o corpo consegue adaptar-se sem desenvolver dor ou limitação.
No entanto, quando existe sobrecarga prolongada, podem surgir sinais como:
- tensão ou fadiga face;
- dores de cabeça, sobretudo ao acordar;
- dor facial;
- sensação de pressão junto aos ouvidos;
- cansaço muscular;
- dificuldade em relaxar a mandíbula;
- desgaste dentário;
- sono pouco reparador;
- sensibilidade dentária;
- dor cervical associada;
- estalidos na mandíbula;
- sensação de apertamento constante.
Algumas pessoas descrevem também a sensação de acordar “já cansadas”, como se os músculos nunca chegassem verdadeiramente a descansar durante a noite.
O que causa o bruxismo?
Atualmente, sabe-se que o bruxismo é multifatorial. Ou seja, não existe uma única causa.
A evidência científica aponta para a influência de vários fatores, incluindo stress emocional, ansiedade, alterações do sono, hiperatividade do sistema nervoso, fadiga, fatores comportamentais, consumo de cafeína, álcool ou estimulantes, alguns medicamentos e/o predisposição individual.
Durante muitos anos, acreditou-se que o bruxismo era causado principalmente por alterações na mordida. Hoje, essa teoria isolada já não é sustentada pela evidência científica atual.
Isto significa que corrigir apenas os dentes ou a oclusão não resolve o problema.
Stress, emoções e sistema nervoso
O sistema nervoso desempenha um papel central no bruxismo.
Em períodos de maior stress ou carga emocional, o corpo tende a aumentar estados de alerta e tensão muscular. Em algumas pessoas, isso manifesta-se através do apertamento mandibular, sobretudo de forma inconsciente.
O bruxismo em vigília, por exemplo, está frequentemente relacionado com momentos de concentração intensa, ansiedade, tensão emocional e estados de hipervigilância.
Já no bruxismo do sono, existe uma forte relação com mecanismos neurológicos associados à regulação do sono e à ativação do sistema nervoso central.
Isto não significa que o bruxismo seja “psicológico”. Significa apenas que o corpo e o sistema nervoso têm um papel importante na forma como estes comportamentos acontecem.
Tratamento: o que a evidência científica recomenda?
O tratamento depende sempre do impacto que o bruxismo está a ter na vida da pessoa.
Quando existe dor, sobrecarga muscular, alterações do sono ou limitação funcional, a abordagem deve ser individualizada e multidisciplinar.
As estratégias mais utilizadas incluem:
- educação e consciencialização;
- fisioterapia;
- gestão de stress;
- melhoria da qualidade do sono;
- estratégias comportamentais;
- controlo de hábitos agravantes;
- goteiras oclusais em casos específicos.
As goteiras podem ajudar a proteger estruturas dentárias e reduzir carga mecânica em alguns casos, mas não eliminam necessariamente o comportamento do bruxismo.
Fisioterapeuta Daniela Ferreira, OF8019
Referências bibliográficas
- Lobbezoo F, Ahlberg J, Raphael KG, et al. International consensus on the assessment of bruxism: Report of a work in progress. Journal of Oral Rehabilitation. 2018;45(11):837–844.
- de Leeuw R, Klasser GD. Orofacial Pain: Guidelines for Assessment, Diagnosis, and Management. Quintessence Publishing; 2018.
- Ohrbach R, Dworkin SF. The evolution of TMD diagnosis: past, present, future. Journal of Dental Research. 2016;95(10):1093–1101.
- Manfredini D, Winocur E, Guarda-Nardini L, Paesani D, Lobbezoo F. Epidemiology of bruxism in adults: a systematic review of the literature. Journal of Orofacial Pain. 2013;27(2):99–110.